Baggio Sedado


Prata da Casa exibe documentário ‘Baggio Sedado’
novembro 14, 2007, 1:31 pm
Filed under: Imprensa

A próxima edição do Projeto Prata da Casa guarda uma grata surpresa para ser apresentada no palco do Teatro Atheneu. Além da vitalidade da banda The Baggios e da música da cantora Márcia Chou, o evento abriga a primeira exibição pública do documentário Baggio Sedado. Dirigido a quatro mãos pelo jornalista Diego Oliveira e pelo músico Júlio Andrade, o filme resgata um pouco da história de José Sinval dos Santos, artista de São Cristóvão que influenciou uma geração inteira de jovens da cidade histórica, e ficou conhecido simplesmente como Baggio, depois de sucumbir à loucura. Em conversa com o Jornal do Dia, Diego Oliveira e Júlio Andrade refletem a respeito das dificuldades impostas à criação artística, falam sobre a ingerência das administrações públicas e da necessidade de uma política cultural comprometida com a realização local.

 

Jornal do Dia – A banda The Baggios adotou como paradigma uma pessoa que, a despeito de seu potencial criativo, foi vitimado por normas e circunstâncias que lhe impediram de alcançar seus objetivos. A banda não tem medo de repetir essa história?

 

Julio Andrade – Claro que não! Temos consciência de que vivemos pra perder e ganhar, e de que só conseguiremos algo se tentarmos. Tento abstrair esse medo e a negatividade, pois eles sugam o que temos de melhor pra oferecer.

 

JD – Diego, como foi que você entrou em contato com a banda e como tomou conhecimento dessa história toda que está por trás de seu batismo?

 

Diego Oliveira – Morei por um tempo na cidade de São Cristóvão. Tempo suficiente para aprender a contemplar sua beleza e reconhecer seus defeitos. Nesse tempo conheci também uma banda de rock com letras em inglês, mas que, curiosamente, diziam muito sobre a cidade, seu sotaque e suas cores barrocas. A história de Baggio veio para mim depois. O esquisito é que, como milhares de cidadãos de lá, eu já havia passado pelo cara por diversas vezes sem lhe prestar atenção. A música e as letras da The Baggios me mostraram um outro lado de Baggio e da própria cidade.

 

JD – Júlio, vocês começaram cantando em inglês? Como foi isso? Porque resolveram cantar em português? Tem a ver com isso de mostrar a cidade para seus moradores?

 

Júlio Andrade – Nossas maiores influências vinham da música norte-americana, do Mississipi, Texas, Seatle, Detroit, Nova York, então eu tinha mais facilidade de escrever e fazer melodias em cima da letra em inglês. Depois eu comecei a conhecer bandas brasileiras como Spectrum, Assim Assado, Blow Up, bandas escondidas do rock brasileiro, e assim fui me familiarizando com melodias em português. Outro motivo é que achei que cantar em português facilitaria a compreensão e aceitação do público. A cidade foi uma conseqüência. Eu notava que as pessoas procuravam refúgio, distração, consolo, em bares, no álcool e de outras formas não tão legais, e sentia que eles estavam se esbarrando num muro chamado tédio.

 

JD – Também queria falar sobre isso. Deve ser muito difícil viver numa cidade como São Cristóvão. Na opinião de vocês, os governos respeitam a riqueza histórica e cultural da cidade? O incentivo à produção artística poderia ser um meio de levar prosperidade para uma cidade como aquela?

 

Júlio Andrade – Acho que sim. Todo artista que pensa em divulgar sua arte precisa de incentivo. Pelo que observo, não apenas em São Cristóvão, mas em Sergipe inteiro os artistas buscam isso, independente de produtores, senão todos ficariam parados. Acho que essa penúria não deveria ser associada a São Cristóvão. Isso é uma realidade em todo o Estado. Seria injusto apontar São Cristóvão como modelo.

Diego Oliveira – Eu acho que, no estágio em que a cidade se encontra, na verdade, embora a cultura esteja entre as melhorias necessárias, acho que não é um investimento prioritário. De uma forma ou de outra a cultura do povo se sobressai e sobrevive aos governos extirpadores. Acho que o povo da cidade necessita agora de educação, saúde e segurança. Com isso, o povo faz o resto. Pra mim, a The Baggios é a prova disso.

JD – Talvez eu esteja enganado, mas a necessidade de fugir do tédio ao qual Julico se referiu agora a pouco, parece impregnar os acordes da The Baggios. Se isso for verdade, de que maneira isso foi traduzido em termos de imagem?

Julio Andrade – As atitudes tomadas por Baggio foram claras. Ele percebia que não tinha muito a ganhar naquele cidade, pois sonhava alto, muito além de tocar numa esquina com seus amigos. Então não teria outra opção senão pegar um punga, durante a década de 70, mesmo sem dinheiro e sem mulher, e ir atrás do que ele realmente queria.

 

Diego Oliveira – Em termos de imagem posso dizer que as imagens de fuga e passagem são recorrentes no filme. Tentamos passar muito essa idéia. Sempre há alguém saindo ou pelo menos viajando em termos de histórias, além do som que, em minha opinião é um discurso que entrelinha o filme, amarra algumas idéias. Até por isso, no momento da edição, decidimos não narrar a história, deixando isso por contas das músicas da The Baggios.

JD – Era outra coisa que queria perguntar. De que maneira o som foi utilizado nesse documentário. Ele meio que costura a história, não é isso?

 

Diego Oliveira – As músicas de Julico são muito narrativas, ilustrativas e poéticas, além de serem muito dramáticas e ativas em muitos pontos chave do documentário. É inevitável não colocá-las como linha narrativa do filme. Tem uma cena específica que eu gostaria de mencionar. Na fase de elaboração do roteiro, tentamos dividir o doc em três partes, que seriam as três fazes psicológicas pelas quais Baggio teria passado. São elas a infância, a loucura e a fase sedada. Para mim, o ponto alto do filme e a parte final do doc, onde ele, teoricamente sedado, avalia seu estado passado de loucura, é emocionante e uma experiência única. Você pode ver um cara com a sobriedade de Baggio avaliar seus momentos de maior agitação, com uma classe de um Paulinho da Viola nordestino e punk!

 

JD – A gente já falou das origens da banda e das dificuldades que uma cidade pequena impõe a seus habitantes. Mas a militância no universo independente de qualquer cidade também possui os seus percalços. Quais as maiores dificuldades que a The Baggios encontrou na divulgação de seu trabalho?

 

Júlio Andrade – Questão de grana, antes de tudo. Sempre tive que sair de São Cristóvão para Aracaju pra ensaiar. São raras as vezes em que ganhamos grana tocando. Não tivemos apoio para a reprodução do disco também… Estamos divulgando nosso trabalho mais pela internet, uma forma rápida e prática, mas o que queríamos mesmo era colocar o pé na estrada como os antigos bluesmen em busca de novos botecos e espaços para de fato divulgarmos o que produzimos… Precisaríamos de um bom apoio, o que é muito difícil de se conseguir.

 

JD – E as dificuldades na realização do documentário, foram parecidas?

 

Diego Oliveira – As dificuldades foram as mesmas, principalmente no ponto financeiro. O cinema, no entanto, pelo menos na fase da realização em si, é um troço bastante livre. Os recursos existentes, como software livre e câmeras de amigos, nos ajudam a não depender de grana, ao menos nessa fase.

JD Esse documentário realmente retrata a figura Baggio da maneira que vocês esperavam?

Júlio Andrade – Esse vídeo retrata a vida não de um pirado, como viam Baggio em São Cristóvão, mas de um cara que perseguindo seus objetivos ignorou os padrões e as barreiras do caminho, construindo pontes para alcançar seu sonho.

 

Baggio Sedado

Baggio Sedado: pontes que perseguem um sonho

 

Serviço:

 

Local: Teatro Atheneu

Data: 20 de novembro

Hora: 21 horas

Preço: R$ 10 (meia R$ 5)

Anúncios

Deixe um comentário so far
Deixe um comentário



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: