Baggio Sedado


Sinopse do filme “Baggio Sedado”
novembro 9, 2007, 1:07 pm
Filed under: Sinopse

Pronto para guerra, com amarrações nas pernas de Pindoba, pulseiras e brincos, Baggio era um andarilho dentro de sua cidade natal, um símbolo vivo para os garotos iniciantes no estranho mundo da cultura alternativa, e uma prova de resistência cultural para os artistas veteranos da cidade.

Para alguns, infelizmente, Baggio ficou conhecido como um pirado, um louco, alguém longe da norma e que se configurava em uma ameaça andante aos bons e rígidos costumes da pacata cidade. De fato, devido aos traumas psicológicos e a uma herança familiar de disfunções mentais, Baggio passou por algumas crises de descontrole mental, não deixando para a família outra alternativa senão interná-lo.

 

Segundo a mãe dele, no final da década de 80, ele chegou em casa apenas com uma calça e uma jaqueta jeans, sua expressão era de fome e tristeza. A partir daí ele ganhou um novo comportamento, passou a ficar agitado e procurava se isolar da vida urbana, chegando a morar uma época na mata situada próximo de sua casa. Sua sobrinha, há época com 5 anos de idade, colocou o apelido que o eternizaria na cidade: Baggio. Agora com um novo jeito de se vestir, agir e encarar o mundo, Baggio parecia ter deixado de vez o seu passado de sonhos e estava imerso numa realidade só sua, num mundo particular de gigantes fogueiras e viagens.

Após tratamentos a base de remédios pesados e até eletro choques, finalmente a família percebeu que o lugar de Sinval era em casa ao lado dos seus. Hoje, perto dos 60 anos, Baggio é um cara calmo, quase sedado, uma figura distante e ao mesmo presente no imaginário da cidade, limitado a sua esquina e acompanhado de seu fiel cachorro.

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Argumento do Filme Baggio Sedado
novembro 9, 2007, 1:06 pm
Filed under: Argumento

Pegando um punga

Rian Santos*

Mente vazia é morada do diabo, e eram tão raras as oportunidades de pecado que não me restava muito a fazer, além de acalentar nojeiras em pensamento. Era como se eu morasse em São Cristóvão, dedilhasse uma guitarra tosca e ruminasse as aventuras de um doido chamado Baggio. Cantam os anos da juventude como uma proeza de cavalaria, campos e moinhos de vento, um desafio na curva de cada esquina, mas o início de minha adolescência foi condenado a quatro paredes de rotina. É essa energia contida, confinada nos limites bem definidos da paisagem de todos os dias, que encontramos no trabalho da banda The Baggios.

Quem duvida pode escutar o CD demo, homônimo, gravado no final do ano passado. Os incautos vão escutar um monte de riffs impregnados de blues e fumaça, ecos setentistas e timbres vigorosos. Para mim, em cada paletada a vontade endoidecida de pegar um trem, fugir ao marasmo de uma cidade morta. Júlio Dodge liga o ampli e é como se cada paralelepípedo da cidade histórica pedisse arrego. Porque São Cristóvão podia, mas não é. Sucumbiu aos homens feito a puta sonhadora, um bordado de ilusões junto aos panos de bunda, o rosto murcho e o bolso vazio no final da madrugada.

Com quinze anos, a mão cheia de calos e uma edição vagabunda dos Contos da Taverna na estante, eu sonhava a embriaguez que minha educação burguesa impedia. Meu plano era arranjar um subemprego para sustentar alguns vícios e me dedicar sem maiores tropeços à redação da prosa insossa de meus dias. Como atesta o presente artigo, meu destino se revelaria menos heróico. A figura Baggio que inspirou os amigos de São Cristóvão, no entanto, foi mais longe. Morou embaixo de pontes, estações de trem, e levou os andrajos de sua poesia para Salvador e São Paulo. No final, alquebrado, retornou a sua cidade natal, para se sentir ainda mais estrangeiro e enlouquecer definitivamente.

Os moleques da banda The Baggios podem se entediar, encher a cara sonhando a Woodstock que nunca viverão e se entediar novamente, sem saber ao certo onde estão indo. Eu, que tenho quase trinta anos mas guardo lembrança de minhas punhetas, escuto suas canções e desconfio que estejam no caminho.

*Colunista do Jornal do Dia